A história da humanidade é repleta de contradições, não foram poucas as vezes que o ser humano, dito civilizado, agiu contrário a própria idéia de civilização. O interesse egoísta esteve quase sempre sobrepujando o afeto, a harmonia e a tolerância para com as diferenças, Não é a toa que em nome da religião, os mais graves fanatismos foram e continuam sendo chamados de a “vontade de Deus”.Basta fazermos uma viagem nos vagões do tempo e veremos que a religião cristã (Em especial por ser a nossa) foi motivo de atrocidades terríveis no florar da era moderna (Séc. XVI), contrariado principalmente os ensinamentos de Jesus de Nazaré, seu fundador, que palmilhou a palestina pregando acima de tudo o amor e tolerância até aos inimigos..Mas que motivos fizeram com que a religião cristã ao longo da história se desviasse tanto dos preceitos ensinados por cristo?Qual das duas vertentes erraram mais ao longo da história ?(O catolicismo apostólico Romano ou o Protestantismo surgido em 1517 com Lutero).
Para responder tais questões é preciso uma analise cuidadosa da temporalidade e das circunstâncias históricas vivenciadas pelo cristianismo ao longo do tempo, para assim, não se correr o risco de cairmos na obscuridade das tendências ideológicas pelas quais formamos nossa consciência cristã.. Como é sabido a historia do cristianismo tem inicio a partir do nascimento de Cristo, esse que, por sua vez com suas palavras que tocavam o mais infinito do coração dos homens, em um curto período de 33 anos projetou a religião com maior numero de adeptos na atualidade. Claro que não foi tão fácio globalizar suas idéias, uma prova de tal dificuldade foi a sua própria crucificação e as mais variadas mortes de seus seguidores pelo império romano, porém a fé inabalável dos cristãos primitivos acabou vencendo o fio da espada dos soldados romanos. Registros mostram que muitas vezes enquanto queimados vivos ou torturados para negarem sua fé, eles bradavam com toda força de sua alma e entoavam cânticos aos céus na esperança de um encontro com o próprio Jesus, era comum morrerem gritando: “ o sangue de mártires é como semente,quanto mais vocês nos matarem, mais apareceram novos cristãos”.. E assim com tamanha ousadia o cristianismo ia ganhado adeptos dentro do próprio império. Cresceu tanto, aponto de se tornar religião oficial de Roma, primeiro no ano de 313 dc, o imperador Constantino dá liberdade de culto, depois no ano de 395, outro imperador, agora Teodósio finalmente oficializa através do edito da Tassalónica, assim fazendo nascer a Igreja Católica Apostólica Romana.
Caminha o tempo e entra-se em um período denominado pelos historiadores de idade média (A partir do ano de 476, que marcou a queda do império romano do ocidente) onde a Igreja cristã vai ser a principal instituição, comandando assim, praticamente toda a vida material e espiritual da sociedade, exercendo através de dogmas tidos como “verdades absolutas e inquestionáveis “suas doutrinas. Assim difundiram-se aliados a idéia de “verdades divinas” ,a divisão da sociedade em três classes”... Clero, Nobreza e Povão ou servos.Cabia a cada uma suas devidas funções, o clero estava encarregado de rezar e receber as “orientações divinas” e depois passalas as outras duas classes, a nobreza se encarregaria de dar proteção,seriam os “grandes guerreiros salvadores da nação” e ao Povão caberia a tarefa de trabalhar e dar o sustendo a todos, pois “em nome de Deus e do bem do cristianismo” a vontade do criador estava sendo feita e só assim todos iriam para o paraíso. Como se pode perceber, neste período o cristianismo já se desviava de alguns preceitos estabelecidos pelo seu fundador, como; “ Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” ou “ A salvação da alma é somente alcançada pela fé”...O poder havia corrompido totalmente os lideres da igreja, isso fez com que surgissem divergências no seu próprio seio.Monges começam a discordar da teologia a das tradições medievais.
Nesta época, (meados do século XVI), o mundo passa a ser visto com outros olhos, vão acontecer mudanças no ideário das pessoas, as potencias européias lançam-se ao mar em busca de novos horizontes, as técnicas, o surgimento de uma filosofia de vida que levantava os valores clássicos e das artes, despertam dentro da mentalidade européia certa inquietação intelectual, isso ira provocar grandes mudanças nos costumes das pessoas. Agora se questionavam algumas “verdades” da igreja sobre a vontade de Deus. Os costumes de alguns Papas também foram motivos de indignações por parte de alguns seguidores do catolicismo romano, o Papa Alexandre VI que reinou de 1492-1503, por exemplo, entes mesmo de tornar-se Papa, já tinha em seu histórico uma fama nada boa, quando ainda era Rodrigo Borgia e concorria a cadeira de cardeal supremo, mandou aniquilar um de seus concorrentes e depois subordinou os homens da igreja para alcançar o posto,depois de eleito era comum suas festas e banquetes cheios de orgias sexuais, sua vida ficou tão corrupta que era comum na Itália todo mundo saber quem eram suas amantes e seus filhos.Quando morreu, Maquiavel chegou a dizer que: “sua alma iria para o tribunal de Deus, escoltada pela sua crueldade, pela corrupção e pela luxuria”.
Martinho Lutero, jovem monge agostiniano figura como aquele que mais se destacou dentre os questionadores dos dogmas tradicionais da Igreja Católica Apostólica Romana, aponto de dividi-la e assim fazer surgir não de forma tão pacifica, outra vertente do cristianismo, em outras palavras, a reforma dividia cristãos ocidentais em católicos e protestantes, por sua vez cada um deles tratou de dividir o outro ao meio com uma espada. É saliente lembrar que a reforma não somente se limitou ao ângulo religioso, por exemplo; os príncipes feudais tinham motivos especiais para apoiar a causa luterana, pois aderindo ao protestantismo, ganhavam ótimo pretexto para se apossar dos bens do clero católico, as terras, as jóias, o ouro, os prédios as plantações e o gado, tudo passava a pertencer aos príncipes. A burguesia que fluorava na Europa, egoisticamente queria liberdade para acumular cada vez mais lucros com seu comercio e agiotagem (A igreja Católica Apostólica Romana acusava o lucro exagerado de “pecado da usura”, pois dizia que não esta obedecendo as leis divinas quem lucra com o tempo de Deus, no caso da agiotagem) viu na reforma uma porta para uma maior massificação dos lucros e apoiou o movimento.
Infelizmente as mortes foram muitas durante esse período, se tinha algo que não faltava, eram pessoas queimando nas labaredas das fogueiras dos inquisitores de ambos os lados, do contrario do que muitos pensam, não existiu somente inquisição católica, o Historiador Henry Kemen, apontou que:” A inquisição protestante anglicana matou mais gente do que a espanhola”, estima-se que 60 mil católicos foram presos e executados, existe também o famoso episódio das bruxas de salém, em que enumeras pessoas foram mortas acusadas de feitiçaria, Lutero apoiou os exércitos dos príncipes que massacraram os camponeses, chegou a pronunciar frases fortes como: “A paz se possível, mas a verdade a qualquer preço”,escreveu panfletos anti-semitas e propôs a expulsão dos judeus da Alemanha. João Calvino, líder reformista na Suíça, também não poupou esforços para perseguir aqueles que discordavam de suas idéias,em 1566, os protestantes calvinistas destruíram centenas de igrejas e conventos católicos na Holanda, deu ordens para que importantes intelectuais como o Médico Miguel de Sevelo (Primeiro ocidental a descobrir a circulação menos do sangue, também era Geógrafo, Farmacêutico, Matemático e tradutor de idiomas) fossem queimados na fogueira.
Pelo apresentado neste artigo, fica claro e perceptível que ambas as vertentes do cristianismo não pouparam esforços para cometer seus imensuráveis erros “em nome de Deus”. Aqui não se pretende expor quem errou mais, condenar ou cair no erro de fazer comparações. Talvez se uma errou mais do que a outra, tenha sido porque a outra não alcançou tamanha gloria e esplendor e assim não pode usar em favor de seus interesses, o que se percebe é que ambas acreditavam em Deus, porem negociavam com o diabo..Os exemplos são suficientes para se ter uma idéia de que,sem dúvida, a luta pela tolerância,pelo respeito ao direito de pensar que todos tem de pensar diferente dos outros,já conta com uma enorme história que ainda não chegou ao fim e da qual,todos nós por vezes dramaticamente fazemos parte..
“Não concordo com nada do que me dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de pensa diferente do meu”.. VOLTAIRE.
César Amorim.
Estudante de Direito
Cesar.c.a@hotmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário